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Obesidade · composição corporal

Medicamentos para o tratamento da obesidade causam perda muscular?

Um novo estudo reacendeu o debate sobre semaglutida, massa magra e qualidade do emagrecimento. Entenda o que os resultados mostram — e o que ainda não sabemos.

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Os medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 mudaram o tratamento da obesidade. Frequentemente chamados pela mídia de “canetas para emagrecer”, eles são fármacos que possuem indicações, contraindicações, possíveis efeitos adversos e necessidade de acompanhamento médico.

Por isso, devem ser tratados com a mesma seriedade dedicada a qualquer outro tratamento de uma doença crônica — e não como produtos estéticos ou soluções de uso indiscriminado.

Além da perda de peso, esses medicamentos podem melhorar o controle metabólico e reduzir complicações em pacientes adequadamente selecionados. Entretanto, à medida que o tratamento se tornou mais conhecido, também surgiu uma pergunta importante: quanto do peso perdido corresponde à gordura e quanto corresponde à massa magra?

Nesta semana, ganhou destaque um estudo sobre o trevogrumabe, medicamento experimental desenvolvido para preservar a massa muscular durante o tratamento com semaglutida. Os resultados são interessantes, mas ainda não justificam conclusões apressadas nem mudanças imediatas na prática clínica.

O que o novo estudo avaliou?

O estudo COURAGE avaliou adultos com obesidade tratados com semaglutida isoladamente ou associada ao trevogrumabe.

O trevogrumabe é um anticorpo que bloqueia a miostatina, proteína envolvida na regulação do crescimento muscular. A proposta é reduzir a perda de massa magra que pode acompanhar uma perda de peso expressiva.

Na fase de 26 semanas, o grupo tratado apenas com semaglutida apresentou redução média de aproximadamente 6,7% da massa magra. Com uma das doses de trevogrumabe, essa redução foi de aproximadamente 3,3%.

Em uma subanálise realizada com ressonância magnética, a associação preservou cerca de 70% da perda muscular observada com a semaglutida isolada após 52 semanas.

Os resultados correspondem a um ensaio clínico de fase 2 e foram apresentados no congresso da European Association for the Study of Diabetes. A empresa responsável pelo desenvolvimento do medicamento também informou que os dados foram aceitos para publicação científica.

Os achados são promissores, principalmente quando pensamos em pessoas mais velhas, pacientes que já apresentam pouca massa muscular ou indivíduos com maior risco de fragilidade.

Entretanto, o trevogrumabe ainda é experimental e não está aprovado para o tratamento da obesidade. Serão necessários estudos maiores para esclarecer sua segurança, seus benefícios funcionais e quais pacientes realmente poderiam se beneficiar da associação.

Também é importante considerar que o ensaio foi patrocinado pela empresa que desenvolve o medicamento. Isso não invalida os resultados, mas reforça a necessidade de análise independente e confirmação em estudos posteriores.

Perder massa magra não significa necessariamente perder a mesma quantidade de músculo

A expressão massa magra não é sinônimo exato de músculo.

Ela inclui músculos, água, órgãos, ossos, tecidos conjuntivos e outros componentes que não são gordura. Por isso, uma redução de massa magra medida por densitometria corporal não corresponde necessariamente à mesma quantidade de músculo funcional perdido.

Além disso, alguma redução de massa magra pode ocorrer durante qualquer processo de emagrecimento significativo, inclusive quando a perda de peso acontece por meio de mudanças alimentares, exercício ou cirurgia bariátrica.

O ponto central não é afirmar que todos os pacientes que utilizam semaglutida ou outros agonistas de GLP-1 desenvolverão sarcopenia. O mais importante é avaliar se o emagrecimento ocorre com preservação adequada de força, função física, ingestão de nutrientes e qualidade de vida.

Revisões científicas sobre os agonistas de GLP-1 confirmam redução importante de gordura corporal, mas apresentam resultados variáveis em relação à massa magra. As diferenças dependem do medicamento utilizado, da população estudada, da duração do tratamento e do método empregado para avaliar a composição corporal.

A balança não conta toda a história

Uma redução expressiva do peso pode trazer benefícios metabólicos importantes. Entretanto, o número mostrado pela balança não deve ser o único indicador de sucesso.

Durante o tratamento da obesidade, também é importante acompanhar:

  • força e desempenho nas atividades diárias;
  • ingestão adequada de proteínas e outros nutrientes;
  • prática regular de exercícios resistidos;
  • velocidade da perda de peso;
  • sintomas como fraqueza, fadiga, tontura ou redução excessiva do apetite;
  • composição corporal, quando sua avaliação puder modificar a conduta;
  • idade, menopausa, osteoporose e risco prévio de sarcopenia.

Esse cuidado é especialmente relevante em idosos, pessoas com baixa massa muscular, pacientes com osteoporose ou histórico de quedas e indivíduos que emagrecem rapidamente sem orientação nutricional.

Também merece atenção o paciente que passa a comer muito pouco por causa da redução do apetite. O objetivo do tratamento não é impedir a alimentação, mas ajudar no controle da fome e da saciedade dentro de uma estratégia nutricional adequada.

É necessário fazer bioimpedância em todas as consultas?

Não necessariamente.

A bioimpedância pode ser útil em algumas situações, mas seus resultados sofrem influência da hidratação, da alimentação, da prática recente de atividade física e do próprio equipamento utilizado.

Uma pequena alteração isolada não deve ser interpretada automaticamente como perda muscular comprovada.

O acompanhamento clínico continua fundamental. A evolução da força, da capacidade funcional, da alimentação, dos sintomas e da prática de atividade física pode ser mais relevante do que repetir exames indiscriminadamente.

Quando houver risco aumentado de perda muscular, métodos mais precisos de avaliação da composição corporal e o acompanhamento multiprofissional podem ser considerados.

Exercício e alimentação continuam sendo fundamentais

Até o momento, a principal estratégia para proteger músculos durante o emagrecimento continua baseada em medidas conhecidas:

  • ingestão proteica individualizada;
  • exercício resistido;
  • correção de deficiências nutricionais;
  • progressão adequada das doses;
  • prevenção de uma restrição alimentar excessiva;
  • acompanhamento da força e da capacidade funcional.

Isso não significa adotar uma dieta hiperproteica por conta própria. Pessoas com doença renal, alterações hepáticas ou outras condições clínicas podem precisar de recomendações específicas.

Da mesma forma, o exercício deve ser adaptado à idade, ao condicionamento físico, às limitações articulares e ao risco cardiovascular de cada pessoa.

O novo medicamento resolverá o problema?

Ainda não é possível afirmar.

Preservar massa magra é um resultado relevante, mas precisamos saber se isso também se traduz em benefícios concretos, como:

  • maior força;
  • melhor mobilidade;
  • menor risco de quedas;
  • redução da fragilidade;
  • melhor manutenção do peso;
  • segurança durante o uso prolongado;
  • benefício clínico que justifique o custo e a exposição a outro medicamento.

Uma combinação tripla também estudada no COURAGE apresentou maior preservação de massa magra, mas provocou mais eventos adversos e não deverá avançar em seu desenvolvimento, segundo a empresa.

Esse resultado demonstra por que uma melhora aparentemente maior em determinado exame não é suficiente para definir um tratamento. O equilíbrio entre benefícios, riscos, tolerabilidade e qualidade de vida continua sendo decisivo.

Isso envolve alimentação adequada, exercícios resistidos, avaliação dos riscos individuais e ajustes de dose conforme a tolerabilidade e a resposta clínica.

A Organização Mundial da Saúde reconhece os agonistas de GLP-1 como uma opção de tratamento prolongado para adultos com obesidade, sempre dentro de um cuidado abrangente e com prescrição e acompanhamento médico.

O objetivo não deve ser apenas perder a maior quantidade possível de quilos. Deve ser reduzir o excesso de gordura corporal, melhorar a saúde metabólica e preservar força, autonomia e qualidade de vida.

Cada pessoa parte de uma condição clínica diferente. A escolha do medicamento, da dose, do ritmo de perda de peso, da alimentação e dos exercícios precisa ser individualizada e reavaliada ao longo do tratamento.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui uma consulta. Não inicie, interrompa nem modifique medicamentos sem orientação médica.

Referências

  1. Rosenstock J et al. COURAGE: trevogrumab associado à semaglutida para preservação de massa magra em adultos com obesidade. Ensaio clínico NCT06299098. ClinicalTrials.gov.
  2. Rosenstock J et al. Lean Mass Effects of Anti-GDF8 (Trevogrumab) ± Anti-Activin A (Garetosmab) in People Living with Obesity Treated with Semaglutide. Diabetes. 2026;75(Suppl 1):1230-OR. Acessar.
  3. Regeneron Pharmaceuticals. Phase 2 COURAGE Trial Confirms Trevogrumab Prevents Lean Mass and Muscle Loss During GLP-1 Receptor Agonist-induced Weight Loss. 2026. Acessar.
  4. Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition: systematic review and meta-analysis. Metabolism. 2025. PubMed.
  5. World Health Organization. Guideline on the use of GLP-1 medicines in treating obesity. 2025. Acessar.

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