Receber um diagnóstico de câncer de tireoide costuma despertar dúvidas que vão muito além da cirurgia: será necessário retirar toda a glândula? Usar iodo radioativo? Manter o TSH muito baixo? Fazer ultrassonografias e exames pelo resto da vida?
Durante muitos anos, o tratamento e o acompanhamento foram frequentemente orientados pela ideia de que uma estratégia mais intensa ofereceria maior segurança. A atualização de 2025 da American Thyroid Association, retomada em publicações para pacientes ao longo de 2026, reforça uma direção diferente: a intensidade do cuidado deve acompanhar o risco e a resposta de cada pessoa ao tratamento. [1–3]
Isso não significa tratar o câncer com menos atenção. Significa evitar procedimentos, doses e exames que podem não acrescentar benefício quando a doença apresenta baixo risco e mantém uma resposta excelente.
De qual câncer estamos falando?
As recomendações se referem ao câncer diferenciado de tireoide em adultos, categoria que inclui principalmente os carcinomas papilífero e folicular.
Elas não devem ser transferidas automaticamente para câncer medular, câncer anaplásico, doença persistente de alto risco ou situações hereditárias específicas. Também não servem para definir a conduta de qualquer nódulo antes de completar a investigação.
A individualização começa justamente por reconhecer que doenças chamadas pelo mesmo nome podem ter extensões, características celulares e comportamentos diferentes.
A cirurgia precisa retirar toda a tireoide?
Nem sempre.
A cirurgia continua sendo uma parte central do tratamento para muitos pacientes. Entretanto, em tumores pequenos, restritos a um dos lobos e sem sinais de extensão ou comprometimento de linfonodos, a retirada apenas do lado afetado — a lobectomia — pode ser suficiente.
As diretrizes de 2025 ampliaram o espaço da lobectomia e da decisão compartilhada. A escolha considera tamanho, localização e características do tumor, imagem dos linfonodos, histórico de radiação, antecedentes familiares, experiência da equipe e preferências do paciente. [1,2]
Preservar parte da glândula pode reduzir o risco de algumas complicações cirúrgicas e, em determinados casos, evitar a necessidade de reposição hormonal permanente. Isso não torna a lobectomia a melhor escolha para todos: doença nos dois lobos, extensão além da tireoide, linfonodos comprometidos e outras características podem favorecer uma cirurgia mais ampla.
A definição deve ocorrer antes do procedimento, idealmente com avaliação integrada do endocrinologista e do cirurgião.
Todo paciente precisa de iodo radioativo?
Também não.
O iodo radioativo tem um papel importante em situações selecionadas, especialmente quando existe maior risco de persistência ou recorrência. Mas seu uso não é automático depois de toda cirurgia.
A decisão depende da anatomia patológica, da extensão da doença, dos exames pós-operatórios e do benefício esperado. Em pessoas de baixo risco, o acompanhamento clínico, laboratorial e por imagem pode ser suficiente.
Evitar um tratamento desnecessário reduz exposição à radiação e possíveis efeitos adversos sem comprometer o cuidado de quem efetivamente apresenta baixo risco. Já nos casos em que há indicação, deixar de utilizá-lo apenas por receio também pode ser inadequado. [1,2]
Por que o TSH era mantido muito baixo?
O TSH estimula as células da tireoide. Como algumas células tumorais também respondem a esse estímulo, doses mais altas de levotiroxina passaram a ser utilizadas para manter o TSH abaixo do intervalo habitual — estratégia conhecida como supressão do TSH.
Essa conduta permanece relevante para algumas pessoas com doença persistente ou risco elevado. O problema é aplicá-la da mesma maneira a todos e mantê-la indefinidamente mesmo quando os exames demonstram excelente resposta.
A supressão excessiva pode aumentar o risco de palpitações, arritmias e perda óssea, além de produzir tremor, ansiedade, intolerância ao calor e alterações do sono em algumas pessoas.
As novas recomendações dão mais importância à reavaliação ao longo do tempo. Quando não existe evidência de doença persistente, pode não haver benefício em manter o TSH intensamente suprimido. O objetivo passa a ser revisto conforme a resposta clínica, a tireoglobulina, os anticorpos, os exames de imagem e os riscos cardiovasculares e ósseos individuais. [1–3]
Isso não autoriza reduzir ou suspender a levotiroxina por conta própria. Mudanças de dose precisam ser graduais, acompanhadas por exames e compatíveis com a cirurgia realizada.
A prática ainda apresenta excesso e falta de tratamento
Um estudo multicêntrico retrospectivo, publicado em 12 de dezembro de 2025, avaliou 1.016 pessoas com câncer diferenciado de baixo risco acompanhadas em centros espanhóis.
Após mediana de 6,6 anos, apenas 39,5% estavam na faixa de TSH considerada adequada pelos critérios então utilizados. Entre os pacientes com excelente resposta, 30,5% recebiam levotiroxina em excesso. Em outros grupos, também houve pessoas com dose insuficiente.
O estudo foi observacional: ele identifica uma dificuldade da prática clínica, mas não demonstra que modificar a dose produza determinado resultado em cada paciente. Ainda assim, reforça a importância de revisar periodicamente o objetivo do tratamento. [4]
Uma revisão sistemática de nove estudos também não encontrou vantagem clara de sobrevida com a supressão do TSH nos dados agrupados, enquanto observou mais eventos cardíacos ou ósseos. Os próprios autores destacaram a heterogeneidade e as limitações das evidências, motivo pelo qual o resultado não deve ser usado para abandonar a supressão quando há indicação clínica. [5]
O acompanhamento pode se tornar menos frequente?
Em algumas pessoas, sim.
Uma mudança importante das diretrizes é não organizar todo o futuro apenas pelo risco calculado no momento da cirurgia. A resposta ao tratamento modifica o risco ao longo do tempo.
Quando uma pessoa permanece durante anos com excelente resposta, sem alterações preocupantes nos exames, pode ser apropriado:
- normalizar o objetivo do TSH;
- ampliar o intervalo entre consultas ou exames;
- deixar de repetir ultrassonografias rotineiras depois de um período prolongado;
- em situações específicas, encerrar certos componentes da vigilância.
As diretrizes chegam a discutir a possibilidade de interromper ultrassonografias após cinco a oito anos de excelente resposta em pacientes de baixo risco e, após tireoidectomia total, interromper a tireoglobulina depois de dez a quinze anos em casos selecionados. Esses intervalos são referências para decisão clínica, não uma autorização automática para suspender exames. [1,3]
Sintomas, achados prévios, anticorpos contra tireoglobulina, tipo de cirurgia e qualidade dos exames podem mudar completamente a decisão.
Menos exames não significa abandono
Para quem passou por um câncer, reduzir a vigilância pode causar insegurança. É compreensível associar mais exames a maior proteção.
Entretanto, exames repetidos sem uma pergunta clínica também têm consequências. Podem identificar alterações mínimas sem importância, gerar novas punções, aumentar a ansiedade e iniciar investigações que não modificam o desfecho.
O cuidado proporcional procura um equilíbrio: monitorar o suficiente para reconhecer uma recorrência relevante, sem manter indefinidamente uma rotina intensa quando a probabilidade de benefício se tornou muito pequena.
A decisão deve ser explicada e registrada. A pessoa precisa saber qual é seu risco atual, quais exames continuam indicados, quais sinais exigem reavaliação e quando será a próxima consulta.
Minha posição clínica
Considero positiva a mudança de um tratamento padronizado para um cuidado orientado pela resposta individual.
No câncer diferenciado de tireoide, fazer mais nem sempre significa cuidar melhor. Para pessoas de baixo risco e com excelente resposta, ampliar uma cirurgia, utilizar iodo radioativo sem benefício claro, manter o TSH excessivamente baixo ou repetir exames indefinidamente pode acrescentar efeitos adversos e ansiedade.
Por outro lado, “tratamento menos intenso” não pode ser transformado em regra geral. Pessoas com doença persistente, características de maior risco ou resposta incompleta continuam precisando de acompanhamento e tratamento proporcionais à sua situação.
Na consulta endocrinológica, considero essencial revisar não apenas o diagnóstico inicial, mas também o que aconteceu depois: tipo de cirurgia, anatomia patológica, tendência da tireoglobulina, anticorpos, imagens, dose de levotiroxina, saúde óssea, risco cardiovascular e impacto do tratamento na vida cotidiana.
Individualizar não significa fazer pouco. Significa fazer o necessário, no momento adequado, e reavaliar quando o risco muda.
Conheça a avaliação endocrinológica das doenças da tireoide.
Referências
- Ringel MD et al. 2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid. 2025;35:841–985. Acessar referência.
- Praw SS et al. Executive Summary of the 2025 American Thyroid Association Management Guidelines. Thyroid. Publicado on-line em 24/10/2025. Acessar referência.
- American Thyroid Association. De-escalating therapy and monitoring. Clinical Thyroidology for the Public. Outubro de 2026. Acessar referência.
- Díez JJ et al. Assessment of levothyroxine therapy adequacy in low-risk differentiated thyroid carcinoma. Frontiers in Endocrinology. 2025;16:1652862. Acessar referência.
- Gubbi S et al. The Effect of Thyrotropin Suppression on Survival Outcomes in Patients with Differentiated Thyroid Cancer. Thyroid. 2024;34:674–686. Acessar referência.
